“Grande sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa

Hoje, a Ana Ribeiro trouxe as suas impressões sobre a leitura de \”Grande Sertão: Veredas\”, do icónico autor João Guimarães Rosa. Em Portugal, a obra foi reeditada pela Companhia das Letras Portugal, no outono de 2019. No Brasil, ela foi reeditada pela Companhia das Letras, numa edição bastante completa e que possui riquissimis textos de apoio.

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Fonte: Companhia das Letras Portugal

\”Grande Sertão: Veredas\”, é o único romance do escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967), lançado em 1956. Li este livro em julho, ao longo de aproximadamente 20 dias e posso dizer que foi uma travessia tortuosa e, simultaneamente, linda. Devido à complexidade da obra, decidi falar – vos dela por tópicos. Espero que gostem e que possam sentir – se inspirados a fazer esta travessia.

Enredo

Neste livro, vamos acompanhar o protagonista Riobaldo, desde a sua infância até se tornar o chefe de jagunços. Para quem não sabe, jagunços eram grupos de homens que, marginalmente, forneciam proteção aos políticos e governadores. Vamos ter duas histórias a decorrer em paralelo: a historia de uma guerra entre grupos de jagunços rivais e a história de amor de dois jagunços, Riobaldo e Diadorim. Estes conhecem – se ainda na infância, no Porto do Rio de Janeiro e é amor à primeira vista, apesar de não terem consciência disso. Nesse dia, Diadorim convida Riobaldo para dar um passeio de canoa. Levados pelo canoeiro, atravessam o \”rio de Janeiro \”, de águas claras, e entram no tortuoso rio de São Francisco. Esta viagem, representa a saída da infância e a entrada na vida adulta, no caso deles, na vida da jagunçagem. Reencontram – se em adultos, quando passam a fazer parte do mesmo bando e a amizade/amor entre eles recomeça, como se nunca se tivessem separado. Um dia, alguns homens do grupo deles, liderados pelo Hermógenes, matam, à traição, o líder do grupo, Joca Ramiro, e dá – se uma divisão no grupo. A principal guerra que vamos acompanhar e que vai culminar no desfecho e na revelação final é, portanto, uma vingança sangrenta. Para ter coragem de realizar esta vingança, Riobaldo vai fazer um pacto com o demónio. Logo nas primeiras paginas, somos apresentados ao dilema entre o bem e o mal e a um sertão que \”está em toda a parte\”. Este Sertão sem tamanho que Guimarães Rosa nos oferece, pertence a um estilo literário usual nos anos 50: o regionalismo universal.

Tempo e espaço

A aventura de jagunços e o amor de Riobaldo e Diadorim, ocorre nos anos 20 mas é contada por um Riobaldo, já velho, nos anos 50. A história percorre todo o Sertão de Minas Gerais e da Bahia. As descrições dos lugares, da fauna e da flora são de cortar a respiração. As paisagens do Sertão fazem parte do amor dos dois jagunços, pois é Diadorim que chama a atenção de Riobaldo para a sua beleza. João Guimarães Rosa, entre muitas outras coisas, era um estudioso de geografia e um apaixonado pelo Sertão, tendo \”Grande Sertão: Veredas\” adquirido uma grande importância geográfica. Muitos geógrafos, mesmo nos dias de hoje, se guiam por esta obra.

\”Aos leitores, e aos que escreverem sobre este livro, pede – se para não revelar a sequência de seu enredo, a fim de não privarem os demais do prazer da descoberta\” — João Guimarães Rosa

Narrador

A narrativa é escrita na primeira pessoa, pelo protagonista Riobaldo (narrador autodiegético), que conta a sua história a um interlocutor, que não nos é apresentado em momento nenhum e que não intervém, explicitamente, no discurso. O diálogo é subentendido pela repetição de perguntas do narrador personagem (ex: \”Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores\”). Ao longo do tempo, foram desenvolvidas várias teorias sobre quem seria este interlocutor misterioso:  Há quem diga que seria o próprio Guimarães Rosa. Há quem diga que seria Euclides da Cunha, autor do livro documental \”Os Sertões\”. Algumas pessoas, defendem um carácter de psicanálise no discurso de Riobaldo. Mas a teoria em que mais gosto de acreditar é que este interlocutor são todas as pessoas que lêem este livro. Acho que esta conexão entre autor e leitor é genial.

Linguagem

Este livro é muito diferente de todos os livros que possam imaginar, pela sua forma única. O autor praticamente inventou uma linguagem nova,  através de termos muito específicos do Sertão de Minas Gerais e da Bahia (linguagem coloquial); de um modo de falar muito próprio dessa região (sintaxe) e da criação de palavras novas (neologismo). Todas estas caraterísticas da linguagem Rosiana são empregues no discurso do protagonista, conferindo, à narrativa, um caráter de oralidade muito acentuado. Para além disso, esta obra não tem qualquer divisão de capítulos. A divisão é feita pelo conteúdo e não pela forma.

Personagens

Este livro tem muitas personagens segundarias, incluindo personagens de \”causos\” que Riobaldo vai contando ao seu interlocutor misterioso, mas vou focar – me nas mais relevantes. Riobaldo é o nosso jagunço reflexivo e medroso. Tem um sentimento de não pertença que o acompanha desde a infância e luta interna e dolorosamente contra o seu amor pelo colega. \”Eu nego que gosto. Eu gosto mas só como amigo\”. A atração que o atira para Diadorim é irresistível e a guerra interior é constante. Com tantas contradições dentro de si, o protagonista vai chegar ao momento do pacto com o Diabo num estado de delírio e nós vamos duvidar se o pacto aconteceu mesmo. Diadorim é o nosso jagunço de grandes olhos verdes, voz suave, traços e gestos delicados. Amante da natureza, chama a atenção de Riobaldo para a beleza do Sertão e ensina – lhe nomes de flores e pássaros. Apesar destas caraterísticas afeminadas, é muito corajoso, ao contrário de Riobaldo, e está sempre a dizer que na vida \”carece de ter coragem\”. No final da trama, Diadorim começa a dar alguns sinais a Riobaldo, mas este não percebe. O arrependimento vai consumi-Io até à velhice.

Esta é a minha primeira travessia no \”Grande Sertão: Veredas\” e posso dizer que fiquei apaixonada pelo Sertão. Para além de tencionar reler, pois tenho a sensação de que me escaparam imensas coisas, já tenho outros livros sobre o Sertão em lista de espera: \”Os Sertões, de Euclides da Cunha e \”Vidas Secas\”, de Graciliano Ramos. Este livro tornou – se um dos meus preferidos da vida pelo seu caráter inovador em todos os aspectos. A história de amor entre dois homens em plenos anos 50, a exaltação de uma região esquecida e de homens marginalizados, e a beleza do Sertão, conquistaram – me.

Àqueles que quiserem ler, não se ponham a pesquisar muito, pois o livro já foi adaptado para filme, minissérie, peça de teatro e vão acabar por encontrar spoilers, que vão estragar a experiência da leitura.

Foto: João Guimarães Rosa/Divulgação

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Sobre o autor:
Nasceu em Cordisburgo, no estado de Minas Gerais, a 27 de junho de 1908. João Guimarães Rosa foi um escritor, diplomata, e médico brasileiro, considerado unanimemente um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Foi o segundo marido de Aracy de Carvalho, conhecida como “Anjo de Hamburgo” pela ajuda preciosa que prestou a refugiados judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Estreou-se na literatura, em 1936, com o volume de poemas “Magma”. Algumas das suas obras mais marcantes são o volume de contos “Sagarana”, publicado em 1946, o livro de novelas “Corpo de Baile” e o romance “Grande Sertão: Veredas”, estas duas publicadas em 1956. “Grande Sertão: Veredas” é o único romance e foi distinguido, no momento da sua publicação, com o Prémio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, o Prémio Carmem Dolores Barbosa, e o Prémio Paula Brito. A sua publicação fez com que Guimarães Rosa encabeçasse a lista dos melhores escritores da terceira geração modernista, a par de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto. Guimarães Rosa foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1963. Morreu inesperadamente, apenas, três dias depois de tomar posse, a 19 de Novembro de 1967, no Rio de Janeiro, no auge da sua carreira literária e diplomática. Estava indicado como um dos possíveis nomes para receber o Prémio Nobel de Literatura.

Sugestão de Leitura:

Leitores residentes em Portugal
“Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa (Companhia das Letras Portugal, Wook):
https://www.wook.pt/…/grande-sertao-veredas-joao-g…/23507159

Leitores que residem no Brasil:
“Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa (Companhia das Letras, Livraria da Travessa):
https://www.travessa.com.br/…/4968df24-5f33-4cf3-9444-8b1fa…

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Boas leituras!

1 thought on ““Grande sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa”

  1. Luis Carlos Almeida

    Me considero versado no vocabulário que é utilizado neste livro. Reli pelo menos quatro vezes e, a cada momento uma descoberta. No sul a palavra veredas significa caminho, o que pode ser condizente com o título; no sentido do livro veredas são pequenos riachos. Outras passagens somente são compreendidas por quem conhece o ciclo agrícola daquela região. Fascinante.

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