Opiniões

“Consentimento”, de Vanessa Springora

Hoje, venho falar-vos, muito provavelmente, de um dos livros mais impactantes de 2021, ainda que só estejamos em fevereiro. “Consentimento”, de Vanessa Springora, cuja edição portuguesa, publicada em setembro de 2020 pela Alfaguara Portugal, contou com a excelente tradução de Tânia Ganho. A edição brasileira deste livro tem o lançamento previsto para o mês de março pela Verus Editora, um dos selos do Grupo Editorial Record. 

F e onte: Alfaguara Portugal

Antes de vos trazer as minhas impressões, quero alertar-vos que, caso sejam leitores mais sensíveis, a autora aborda o tema  do abuso sexual de menores.

Esta é uma narrativa, baseada numa história verídica, vivida pela própria autora, que também é editora.

Nas décadas de 70 e 80 do século passado, em França, existe um movimento que defende a relação sexual entre adultos e menores porque, para essas pessoas, “é proibido proibir”.

Nessa altura, várias petições circulam pelo país e algumas contam com as assinaturas de personalidades importantes do panorama cultural e intelectual francês.

É nesta sociedade de “costumes” que, hoje em dia, são considerados como inqualificáveis que V., uma jovem de 14 anos se apaixona por um homem de 50 anos.

Antes disso, numa primeira camada, ela resume, de forma breve, como foi a sua infância, a sua vida familiar e o impacto que, ainda em tenra idade, a separação dos seus pais teve. Desde cedo, percebemos que ela gosta de ler e vive rodeada de livros. Contudo, o facto de ter sido abandonada pelo pai, causa-lhe uma mágoa inconsolável.

“Algumas crianças passam os dias entre as árvores. Eu passo os meus entre os livros. Afogo, assim, a mágoa inconsolável em que o abandono do meu pai me mergulhou.” — Vanessa Springora

Esse abandono precoce também fez com que ela comece a explorar o seu corpo e, naturalmente, a sua sexualidade, por volta dos 12 anos. como ela revela nas primeiras páginas deste livro. Aliado a este acontecimento marcante, existem os constantes relacionamentos que a mãe mantém com vários amantes, o que só agrava e apressa essas descobertas.

“O Julien e eu acabámos de fazer doze anos. Embora, por vezes, à noite, antes de avançarmos para jogos mais ousados, nos beijemos langorosamente, nunca essa cumplicidade adquire a forma do amor.” — Vanessa Springora

Vanessa conhece G. durante um jantar, organizado pela sua mãe, uma vez que ela trabalha no mercado editorial e, por esse motivo, eles têm com a presença de várias pessoas ligadas ao meio literário.

Por ser uma adolescente que conhece o mundo através dos livros, muitas vezes, a única companhia, os seus únicos e verdadeiros amigos, não é de estranhar que ao perceber que, a partir daquele momento, começa a ser notada, elogiada e acarinhada por um escritor, ainda mais famoso e reconhecido pela sociedade, é uma espécie de presente caído do céu. Como ela própria diz, o vazio deixado pelo pai cria, dentro dela, a sensação de que tinha “uma enorme necessidade de ser vista”.

Com efeito, naquela idade, no início da sua relação com ele, é natural que ela, vindo de uma família destruturada, pela qual se sente abandonada, incluindo pelos próprios pais, goste dessa atenção, uma vez que é algo que não tem. Afinal, até àquele momento, o seu único refugio tinham sido os livros.

“Durante essa primeira tarde passada em casa dele, o G. mostra-se de uma delicadeza extraordinária.” — Vanessa Springora

Se, por um lado, ao descobrir, a mãe fica chocada e, pela primeira vez, apelida o G. de pedófilo, por outro, ficamos a saber que ao saber que o escritor até escreveu um poema para a sua filha adolescente, nas palavras da narradora, ela passa a vê-la “prematuramente como uma rival.”.

Com o avançar desta relação altamente nociva e ilegal, ainda que a jovem se sinta apaixonada e rendida aos encantos deste autor absurdamente manipulador, eles trocam correspondência um com o outro. É dessa forma que o autor vai, aos poucos, enredando a sua vítima, no seu jogo de aparências, no seu jogo ficcional, dado que ele usa essas mesmas cartas no processo de construção dos seus livros e diários íntimos que existem na vida real, tal como o autor que, neste momento, tem 84 anos. Para mim, isso dá uma dimensão ainda mais avassaladora a esta narrativa.

Uma das diversas perguntas que é feita, ao leitor, sem rodeios, é esta:

“Porque é que desejamos tão preconcemente ser devorados?” — Vanessa Springora

Uma situação que demonstra a loucura e a atracção desmedida e doentia do G. por ninfetas, de forma clara e inequívoca, acontece durante uma ida dele a um programa de televisão, acompanhado por ela, onde ela se maquilha para ele. Para ele, isto é uma afronta porque, se ela se começar a pintar e a querer ficar com um ar de “senhora”, ele deixa de se sentir interessado.

Uma das coisas que mais me revolta é a passividade da sua mãe, dos amigos dela e de toda uma sociedade que fecha os olhos a tudo o que acontece com a jovem V.

“Pelo visto, ninguém se mostra particularmente preocupado. Aos poucos, ante a minha determinação, ela acaba por aceitar os factos como são. Talvez me julgue mais forte, mais madura do que sou.” — Vanessa Springora

É a partir desta atitude espalhada por toda uma nação que a autora nos faz reflectir sobre o que é o consentimento sexual e deixa várias questões no ar, sendo que uma delas é: Qual deve ser a idade mínima para que os adolescentes, sem excepção, possam ser considerados maduros e aptos para lidar com este tipo de relações?

Nesse sentido, a obsessão deste mestre das palavras é ainda mais profunda, porque o G.M, como a Vanessa tem o cuidado de o chamar em algumas das referências que lhe faz, tratando-o pelas iniciais, também sente prazer em relacionar com rapazes com idades inferiores às idades da Vanessa e das outras raparigas com quem ele se relaciona. Aliás, ele expõe essas suas conquitas, sem qualquer pudor, nos seus manuscritos, revelando nomes, idades, datas de nascimento e detalhes sobre as relações que mantém com elas.

A certa altura, ela revela:

“Feliz, febril e concentrado, dá forma, na sua máquina de escrever, às notas assentes num caderno preto de moleskine. Igual aos que Hemingway usava, ensina-me ele. Continuo terminantemente proíbida de ler os volumes do seu diário íntimo e literário. Mas, desde que o G. começou a escrever este romance, a realidade muda de campo: de musa, transformo-me gradualmente em personagem de ficção.” — Vanessa Springora

Durante o seu processo de libertação, onde o autor, mesmo depois de três décadas após o fim do relacionamento, não deixa de a perseguir, Springora, que agora é editora, chega a questionar, de forma legítima e totalmente natural, o que levou as editoras, naquela altura, a permitirem que os livros desta figura literária, premiada com um Prémio Renaudot, um dos galardões literários franceses mais célebres, fossem publicados.

Este livro de não-ficção, aquando da sua publicação em França, provocou uma enorme polémica em toda a sociedade, o que levou a que várias editoras e livrarias retirassem os livros do autor do mercado. Adicionalmente, num artigo do jornal Público, soubemos que ele vai a julgamento por estes crimes e, mesmo que não tenha nenhuma consequência prática, devido à sua avançada idade, esta, na minha opinião, sem margem para dúvidas, é uma vitória deste livro e da sua autora que, de forma corajosa, conseguiu trazer este tema novamente ao debate.

Queria deixar um ponto aqui bem claro: Embora pense que todos têm o direito de se defender, o facto de saber que G.M. vai editar um livro, em resposta a este relato, que se intitulará de “Vanessa Vírus”, é algo que me deixa estupefacto. Apesar de não vir a ser publicado por nenhuma casa editorial de grande porte, este gesto perpetua um ambiente cruel e sombrio sobre as suas vítimas.

Ao longo de 184 páginas, este livro, por um lado, trouxe-me uma realidade indigesta e revoltante e, por outro, reforçou a minha crença de que este tipo de narrativas, mesmo que abordem temas delicados, se os escritores o souberem fazer, para além de serem necessárias, nos dias que correm, ajudam a desconstruir tabus e mentalidades que, muitas vezes, ficaram presas a conceitos que, hoje em dia, são totalmente condenáveis. Uma leitura digna de 5 estrelas e um livro que todos devem ler.

Foto: Vanessa Springora por Olivier Dion

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Sobre a autora:
Nascida em 1972, na cidade de Paris, Vanessa Springora é editora, escritora e cineasta. Fez Mestrado em Literatura Moderna na Universidade de Sorbonne e licenciou-se em Cinema no Institut National Audiovisuel em Paris. antes de começar a trabalhar como assistente editorial na chancela literária Juillard, que dirige desde 2019. “Consentimento” é o seu primeiro romance, com direitos vendidos para mais de 20 países. Venceu o Grande Prémio das Leitoras da revista Elle e o Prémio Jean-Jacques Rousseau de literatura autobiográfica, além de ter sido um fenómeno editorial e social, pela comoção que causou na sociedade francesa.

Sugestão de Leitura:

Leitores residentes em Portugal:
“Consentimento”, de Vanessa Springora (Alfaguara Portugal, Wook):
https://www.wook.pt/livro/essa-gente-chico-buarque/23579755

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Boas leituras!

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Criativo, Criador do Sonhando Entre Linhas, amo ler, e escrever. Gosto de ler quase todos os géneros literários. Amo autores como Valter Hugo Mãe, Fernando Pessoa, José Saramago, João Pinto Coelho, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, entre outros. Desde agosto de 2019, trabalho no Grupo LeYa Portugal.

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