Opiniões

“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie

Numa palestra que deu, Chimamanda Ngozi Adichie pôs em relevo os perigos de lermos, apenas, um certo tipo de livros provenientes de um mesmo espaço cultural. Nascida e criada na Nigéria, a escritora salientou o modo como a leitura de livros provenientes da Europa e dos Estados Unidos moldou a sua imaginação de criança, levando-a a concluir que as pessoas que neles eram retratadas (europeias, louras e de olhos azuis) podiam ser protagonistas de histórias. Esta perspectiva mudou quando começou a ler livros de outros continentes, designadamente daquele em que nasceu, África.

Fonte: Publicações Dom Quixote

Atermo-nos a uma só narrativa pode, de facto, criar, em nós, a convicção de que só quem é protagonista dela pode efectivamente ter uma história para contar. Não é esse também um dos riscos de ler apenas narrativas escritas por homens brancos?

Como Naomi Wolff escreveu em “O Mito da Beleza”, em tais obras, são os homens que, normalmente, são os protagonistas. E, se tal papel é atribuído a uma mulher, é porque ela tem uma característica que a distingue das demais. Essa característica, por regra, prende-se com o seu aspecto físico, sendo vista como muito mais atraente do que as mulheres comuns, sobre as quais não se escrevem livros, pois, nada há a contar. Ainda assim, a visão masculina, deixa, igualmente, a sua marca indelével na moral da história.

Por exemplo, se Anna Karénina fosse escrita por uma mulher, o romance terminaria nos termos descritos por Tólstoi? Tenho dúvidas, sobretudo, porque creio que o escritor russo utilizou o destino dado às suas personagens femininas como um conto cautelar, submetido às suas crenças religiosas e morais.

Por outro lado, para quem não se encontra na minoria e, por isso, mais facilmente se revê na produção cultural que merece destaque mais imediato, essa opção pode revelar-se empobrecedora, uma vez que deixa, de fora, muitos e muitos mundos que devemos procurar conhecer.

“Americanah” é a demonstração palpável de que devemos procurar leituras oriundas de diferentes espaços e tempos culturais, pela diversidade de perspectivas que ganhamos e, ainda, pela elasticidade daí decorrente. Só temos a ganhar, creio. O livro conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana da classe média que vai viver para os Estados Unidos da América, para aí prosseguir os seus estudos. Seguimos o seu percurso, dentro e fora da universidade, as dificuldades sentidas e as alegrias do sucesso.

A primeira surpresa deste livro é o retrato da Nigéria que nos oferece. Estamos habituados a pensar em África como um local de sofrimento e miséria. Contudo, as palavras de Chimamanda mostram-nos o que há para além disso. Esta é uma Nigéria com problemas sociais e políticos, sim. No entanto, existem livros, cinemas, universidades, jovens com ambições e aspirações românticas, ricos, pobres, sonhadores, corrompidos e corruptores, festas à beira da piscina e revistas femininas. Só isso, já provoca uma mudança nas habituais descrições, algo monocromáticas.

Outro aspecto essencial do livro é o modo como a protagonista reflecte sobre as questões da raça, um problema que lhe surge, pela primeira vez, quando vai viver para os Estados Unidos da América, para prosseguir os estudos.

O que é ser negro? Há uma diferença entre ser negro nascido nos EUA e ser proveniente de África? Como é que se sente o racismo no dia-a-dia, não aquele gritante, mas o mais subtil? E as relações inter-raciais? Podem passar à margem da questão da raça, designadamente, quando confrontadas com o mundo exterior? Confesso que leio pouca literatura africana pelo que, para mim, foi uma experiência especialmente enriquecedora, acompanhar as vivências de Ifemelu durante os anos em que reside nos Estados Unidos.

Vivências em que ela se descobre como negra e também como mulher, introduzindo, aqui, também essa perspectiva. E não apenas nas grandes questões. O que é curioso e diferente do muito que lemos é conhecer o interior de Ifemelu, as suas emoções como rapariga, nomeadamente, perante as experiências amorosas e sexuais. Ifemelu é uma protagonista de corpo inteiro.

Para além de um retrato sociológico e psicológico excepcional, escrito de uma forma que torna a leitura da obra compulsiva, este livro encerra ainda uma história de amor entre Ifemelu e Obinze. Apaixonados desde a adolescência, são separados no início da idade adulta, sendo evidente, logo nas primeiras páginas, que não tendo ficado cristalizados, não se esqueceram um do outro.

Com este livro, a autora nigeriana ganhou um lugar de destaque na literatura internacional. A meu ver, de forma inteiramente justificada. Não só pelos temas abordados, mas pela consistência narrativa, pela capacidade de nos colocar dentro da história, acompanhando e percebendo as emoções das personagens, pela capacidade de mostrar as diferentes perspectivas de uma diferente realidade. Para mim, é de leitura obrigatória e. seguramente. lerei outros livros desta escritora.

No Brasil, esta narrativa foi publicada pela Companhia das Letras. Quanto a Portugal, ela chegou às livrarias nacionais, através da Dom Quixote.

Mais uma estreia, esta semana, no Sonhando Entre Linhas. Dêem as boas-vindas à Carla Coelho, através dos comentários.

Foto: Chimamanda Ngozi Adichie por One Aldwych

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Sobre a autora:
Nasceu na Nigéria, em 1977, tendo ido estudar para os Estados Unidos aos dezanove anos. Os seus contos apareceram em diversas publicações e receberam inúmeros galardões como o da BBC Short Story Competition em 2002 e o O. Henry Short Story Prize em 2003. “A Cor do Hibisco”, o seu primeiro romance, foi distinguido com o Hurston/Wright Legacy Award 2004 e o Commonwealth Writers’ Prize 2005, tendo também sido finalista do Orange Broadband Prize 2004 e nomeado para o Man Booker Prize 2004. “Meio Sol Amarelo”, já publicado pela Dom Quixote, venceu, em 2007, o Orange Broadband Prize, o Anisfield-Wolf Book Award e o PEN Beyond Margins Award. “Americanah” venceu o Chicago Tribune Heartland Prize 2013. A escritora foi também distinguida, em 2008, com um Future Award na categoria de Jovem do Ano e recebeu uma bolsa da MacArthur Foundation, considerada a “bolsa dos génios”, no valor de 500 mil dólares. A sua obra encontra-se traduzida em trinta e uma línguas.

Sugestões de Leitura:

Leitores residentes em Portugal:
“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie (Dom Quixote, Wook):
https://www.wook.pt/livro/americanah-chimamanda-ngozi-adichie/15222301

Leitores residentes no Brasil:
“Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, Livraria da Travessa):
https://www.travessa.com.br/americanah/artigo/63ac4681-b75e-47e9-9640-887c215bf313

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Boas leituras!

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