Vida de Escritor

Amanda Gorman, a força da poesia, na tomada de posse de Joe Biden, através do poema “The Hill We Climb” e a sua jornada de superação

Aos 22 anos, a poetisa americana Amanda Gorman ofereceu, a todos aqueles que assistiam à tomada de posse de Joe Biden, um dos momentos mais emocionantes da cerimónia ao declamar “The Hill We Climb”, um dos poemas que escreveu para a sua coleção de poemas, que será lançada a 21 de setembro deste ano pela Viking Books for Young Readers, numa edição de capa dura, com 80 páginas. Com um 1,55m de altura e, depois de vencer um problema na fala, a escritora, que adora o universo de Harry Potter, nascida em Los Angeles, mostrou o quando forte a literatura pode ser num mundo que está a passar um tremendo caos.

Antes, os erres saíam-lhe com dificuldade da boca e isso ocorria quando, para não ficavam presos na sua boca, saíam. O impedimento que demostrava no ato de falar tornou-se num obstáculo difícil de contornar. Quando não era confundida com uma imigrante, sendo que ela nasceu em Los Angeles, as casas de banho transformavam-se no seu mundo enclausurado, a fim de repetir, vexes sem conta, as palavras que tinha dificuldade em dizer.

Fonte: Viking Books for Young Readers

Sem sinais à vista da dificulada na fala que, no passado, a tinha atemorizado, Amanda Gorman subiu ao palanque destinado aos discursos na cerimónia de tomada de posse de Joe Biden, que assumiria, a partir daquele dia, o cargo de Presidente dos Estados Unidos. Nesse momento, apesar da sua baixa estatura, Amanda agigantou-se e atarvés do poema “The Hill We Climb”, do qual é a autora, mostrou a sua força, a sua personalidade e as suas convicções. Num período de pouco mais de cinco minutos, tornava-se na estrela daquele momento histórico, após a saída de Donald Trump da Casa Branca.

Um traço que captou a minha atenção foi o facto de, aos 22 anos, Gorman já possui um currículo repleto de conquistas e reconhecimento. Com esta última presença, passou a ser a mais poeta mais nova de sempre a recitar poemas durante uma tomada de posse presidencial naquela que é conhecida como a “terra de todas as possibilidades”. Porém, esta é uma prática exercida por poucos presidentes. Até ao momento, foram apenas três e todos eles eram do Partido Democrata. Kennedy recrutou Robert Frost. Obama chamou Elizabeth Alexander e Richard Blanco e Clinton convidou Maya Angelou, poetisa e ativista, tal como Amanda que a considera como a sua heroína.

Foi Jill Biden, a nova primeira-dama,  depois de ter assistido, ao vivo, ao recital que a jovem poeta deu na Livraria do Congresso, que decidiu fazer o convite para este momento. O impressionante dom da palavra tem garantido que Gorman é sempre o centro de todas as atenções, tendo sido eleita Jovem Poeta Laureada da sua cidade-natal, ainda antes de completado 18 anos. e, além disso, acabou por conquistar o prémio nacional em 2017.

Ainda assim, o convite exigia-lhe uma obra do tamanho do mundo ou, pelo menos, que pudesse ombrear com a escrita de Frost ou Angelou. Com esse intuito em mente, debruçou-se sobre livros, estudou os discursos de Abraham Lincoln, Frederick Douglass, Martin Luther King e Winston Churchill, sem se esquecer, naturalmente, ao longo do caminho, de aperfeiçoar a obra.

“Esse dia, [o dia do ataque ao Capitólio], deu-me uma segunda vaga de energia para concluir o poema.” — Amanda Gorman

Inspirada por esse evento trágico, ela encontrou uma linha perfeita que está presente neste poema que integra a sua colecção de poemas:

“Mas enquanto a democracia pode ser periodicamente adiada / Nunca pode ser permanentemente derrotada” — Amanda Gorman

Com se tudo isto já não carregasse, dentro de si, todo um simbolismo, o discurso que proferiu no palanque da casa da nação alimentou-lhe outro sonho: o de ser Presidente dos Estados Unidos, ainda que esse momento, nas suas próprias palavras, só deva acontecer “lá para 2036”.

Embora, no presente, não tenha a idade ou a experiência para se lançar numa obra dessa magnitude, a presença é uma qualidade que ela tem de sobra. De amarelo garrido no casaco Prada, bandolete vermelha e jóias cheias de simgnificado, o look colorido e ousado, uma característica pela qual é também conhecida, escondia um par de histórias.

No dedo, Gorman trazia um volumoso anel em forma de jaula. Este foi um presente dado por Oprah Winfrey como forma de homenagem a Maya Angelou e ao seu célebre “Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola”, recitado no mesmo local em 1993, na tomada de posse de Bill Clinton.

Tal como fez com Angelou, Winfrey quis pagar o casaco de Gorman que, afinal, já se tinha adiantado. Decidiu, então, que as jóias haveriam de ser a forma escolhida para apoiar, como faz quase sempre, todos os jovens talentos negros do seu país.

A sua jornada de superação

Todavia, a história de vida desta poeta não cai nos estereótipos comuns da comunidade negra. Filha de uma mãe solteira, professora de inglês, fez a educação numa escola privada. Ainda assim, nem tudo foi fácil.

Nasceu 45 segundos após a irmã gémea, ambas as raparigas foram prematuras e Joan Wicks, a mãe, temia que pudessem sofrer de algum tipo de incapacidade. O caso não foi tão grave quanto se poderia prever, mas as sequelas manifestaram-se. Além de um impedimento na fala, que lhe dificultava a comunicação, Gorman foi diagnosticada com um distúrbio de processamento auditivo.

“Ela tinha dificuldades em exprimir-se, mas sempre teve um pensamento muito avançado para a idade.” Joan Wicks 

Como já era de esperar, aprendeu a ler muito mais tarde do que os colegas. Contudo, quando o fez, tornou-se numa ávida leitora. Devorou os livros do Harry Potter, antes de se lançar em obras e autores mais desafiantes.

As suas dificuldades conduziram-na a sessões de terapia e a ter que se esforçar um pouco mais do que os outros. Gorman não gostava, sobretudo, quando o impedimento na fala mudava a perceção que os outros tinham de si. Era regularmente confundida como uma imigrante, algumas vezes, pensavam que era britânica. Outras pessoas pensavam que tinha vindo de África.

“Obviamente que não sou imigrante, nasci e cresci na América, mas sinto que tive que aprender inglês quase como uma outsider e isso fez-me dar valor a todos os que vêm de fora para o nosso país.” — Amanda Gorman

A certa altura, sentiu que essa confusão das pessoas poderia tornar-se em algo interessante:

[Percebi que] se julgassem que eu vinha da Europa, tratavam-me muito bem, como se fosse uma intelectual sofisticada; se eu lhes desse a entender que vinha da Nigéria, faziam comentários como ‘Oh, é assim que funcionam os cartões de crédito’ ou ‘talvez não soubessem disto na aldeia de onde vens’” — Amanda Gorman

Tal como Biden, o impedimento da fala nunca a impediu de seguir em frente com o seu talento. Hoje, que se tornou numa oradora para grandes eventos, um nicho que, confessa, nunca ter imaginado que pudesse ser o seu, explica que é comum receber mensagens inspiradas dos fãs.

Em tom de confissão, cheia de orgulho, declara:

“De vez em quando, há uma menina que surge nos eventos que me diz que têm o mesmo distúrbio que eu e que fala exatamente como eu.” — Amanda Gorman

Maya Angelou, a sua heroína, também sofreu com mudez quando era criança. “E ela cresceu e acabou por recitar o poema inaugural para o Presidente Bill Clinton. Por isso acho que existe aqui uma história real de oradores que tiveram que lutar com um certo tipo de mudez imposta”, explicou numa entrevista para a NPR.

“Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola” de Maya Angelou ajudou-a a criar uma ligação à autora, ativista e símbolo da comunidade negra. 

“Sentia-me como ela enquanto crescia. Conseguiu ultrapassar anos a fio a não conseguir falar por si própria, tinha tanto amor pela poesia.” Amanda Gorman

Dos seus tempos da infância, recorda-se do vício da leitura e da forma como a mãe a repreendia sempre que a apanhava a caminhar enquanto lia. Da saga de Harry Potter, de J. K. Rowling, saltou para a saga fantástica protagonizada por Percy Jackson, de Rick Riordan, até chegar à sua favorita, a obra “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë.

Em declarações ao The Bucknellian, ela recorda esse momento: 

“Lia tudo o que conseguia apanhar e depois relia os meus favoritos até que se desfizessem nas minhas mãos.” — Amanda Gorman

Começou por escrever as suas próprias histórias e a partir do momento que aprendeu a arte da metáfora e da poesia, para ela, escrever tornou-se mais fácil. Das histórias de “raparigas brancas com cabelo ruivo e olhos azuis”, passou para algo mais próximo da sua vida real, com ajuda dos livros de Toni Morrison, principalmente.

“Percebi que as histórias podiam ser sobre pessoas que se pareciam comigo.” — Amanda Gorman

Acabou por descobrir e ficar fascinada pelos trabalhos de outras mulheres negras como Audre Lorde e Phillis Wheatley, também elas com um foco especial nos temas da justiça social, feminismo e raça.

Aos 16 anos, com o apoio de uma organização não-governamental, ligada às artes e a juventude, submeteu alguns dos seus poemas sobre temas de injustiça social. Foram esses trabalhos que a levaram a conquistar o prémio de Jovem Poeta Laureada de Los Angeles, em 2014. Um ano depois, publicava o seu primeiro livro: “The One for Whom Food is Not Enough”.

Confessa-se uma autodidata da escrita, apesar de ter frequentado um ocasional curso de escrita criativa. Todavia, a poesia nunca entrou nestas contas. Confessou, aliás, que só aceitou verdadeiramente o título depois de ser eleita como a Jovem Poeta Laureada de Los Angeles.

Em termos de formação superior, escolheu formar-se em sociologia porque se queria desafiar a si própria para aprender algo de novo.

“Até porque a minha vida, por sua própria vontade, puxar-me-ia sempre para a escrita.” — Amanda Gorman

Licenciou-se em Harvard e tornou-se numa ativista, à medida que os conhecimentos sobre “movimentos e instituições” a ajudaram a “aprofundar” o seu trabalho como poeta.

Apareceu na MTV, escreveu poemas para a Nike e, em setembro, vai lançar o seu primeiro livro para crianças, “Change Sings”. Acabou por ser a recitar, em público, que começou a tornar-se conhecuda. Fê-lo em celebrações do Dia da Independência, no palanque da sua Universidade de Harvard, na Livraria do Congresso e, agora, no Capitólio, numa tomada de posse.

“Acho que tropecei neste nicho. É algo em que encontro uma enorme recompensa emocional, escrever algo que possa tocar as pessoas, mesmo que seja apenas por uma noite.” — Amanda Gorman

Isso não significava que não houvesse, por parte desta jovem aparentemente confiante, de 22 anos, muito medo.

“Antes, ficava nas casas de banho, durante os cinco minutos, a escrevinhar e a tentar perceber se conseguia dizer ‘terra’ ou ‘rapariga’.” Amanda Gorman

Após superar todas as dificuldades, Gorman acredita que o que não a matou tornou-a mais forte. “Não olho para os meus problemas como uma fraqueza. Foram eles que me tornaram na performer que sou e na contadora de histórias que ambiciono ser.”, sublinha e, ao mesmo tempo, explica que as atuações a fazem sentir-se “aterrorizada, mas embriagada de poder”.

Fotos: 1) Amanda Gorman por Patrick Semansky; 2) Amanda Gorman por por Kai R. McNamee; 3) Amanda Gorman por Anna Zhang;

Sobre a autora:
Amanda Gorman tornou-se a sexta e mais jovem poeta, aos vinte e dois anos, a ler um poema na tomada de posse presidencial. Ativista comprometida, trabalha a nível local, nacional e internacional em defesa de causas como o ambiente, a justiça racial e a igualdade de género. O trabalho de Amanda Gorman foi já divulgado em vários meios, tais como The Today Show, PBS Kids, CBS This Morning, The New York Times, Vogue, Essence e O, The Oprah Magazine. É também autora do álbum infantil “Change Sings”, com ilustrações de Loren Long, ilustrador bestseller do New York Times, assim como da coletânea de poesia “The Hill We Climb and Other Poems”. Amanda Gorman licenciou-se na Universidade de Harvard e vive em Los Angeles.

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Boas leituras!

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Criativo, Criador do Sonhando Entre Linhas, amo ler, e escrever. Gosto de ler quase todos os géneros literários. Amo autores como Valter Hugo Mãe, Fernando Pessoa, José Saramago, João Pinto Coelho, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, entre outros. Desde agosto de 2019, trabalho no Grupo LeYa Portugal.

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