Encontro de Leituras

A realidade cruel e chocante de “Pão de Açúcar”, de Afonso Reis Cabral, em discussão no clube do livro do Público em parceria com a Folha de São Paulo

Vencedor do Prémio LeYa, em 2014, com “O Meu Irmão”, e do Prémio Literário José Saramago, em 2019, com este “Pão de Açúcar”, Afonso Reis Cabral será o convidado de Junho do Encontro de Leituras, na próxima terça-feira, dia 8, pelas 22 horas em Portugal (18 horas em Brasília), no clube de leitura do PÚBLICO e da Folha de S. Paulo.

Como se pode passar da amizade para a maldade? Este foi o gatilho que serviu de motivo ao autor para escrever este romance avassalador e, infelizmente, assustadoramente real, dado que foi inspirado no caso de Gisberta Salce Júnior, a mulher transgénero, originária do Brasil, que em Fevereiro de 2006 foi agredida vários dias e depois morta por um grupo de rapazes, com idades entre os 12 e os 16 anos, num prédio inacabado do Porto.

“Este percurso entre um ponto e outro era um vazio que eu tinha de preencher com literatura” — Afonso Reis Cabral

fonte: Publicações Dom Quixote

Foi com esta frase que o jovem escritor português explicou o seu ponto de vista quando recebeu o Prémio José Saramago por este livro.

Numa primeira fase, três desses rapazes ajudaram Gisberta, uma imigrante em situação irregular, trabalhadora do sexo, toxicodependente e sem–abrigo. Nessa época, eles tiveram um início de amizade. No entanto, semanas mais tarde, ela acabou por ser atirada para o fundo de um fosso.

Acendi de novo o isqueiro e pu-lo à frente da boca dela. A chama aqueceu-lhe a ponta do nariz num prumo imóvel por onde não passava qualquer fôlego. O Nélson afastou-se de nós e disse ‘Caralho para isto’. E considerava triste a Gi acabar assim entre gente como o Fábio, o Leandro e o Grilo, para quem a vida dela tinha sido pouco mais do que o contraste entre as mamas e o pénis. Fora muito maior: tivera amigos como eu e o Samuel.”, lê-se num dos capítulos finais deste romance.

Em 2006, o ano em que este caso ocorreu, Afonso Reis Cabral tinha igualmente 16 anos. Para escrever este livro, que António Mega Ferreira, membro do júri do Prémio Saramago, considerou “uma das obras ficcionais portuguesas mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos” numa escrita que revela “maturidade narrativa e estilística notáveis”, Afonso Reis Cabral conversou com Rute Bianca, amiga de Gisberta, e diz que sem ela “o livro teria ficado coxo”.

Além disso, levou a cabo várias “investidas ilegais” àquele lugar onde iria nascer um supermercado Pão de Açúcar, no Porto, conversou com outras pessoas que conheceram Gisberta e leu o processo judicial, bem como o que, ao longo dos anos, foi relatado pela imprensa sobre o caso que marcou a sociedade portuguesa. Depois, como ele próprio escreve numa nota no livro, baralhou tudo com ficção, “que é como se faz um romance”. Por essa razão, o leitor encontra nesta narrativa, editada em Portugal pela Dom Quixote e no Brasil pela HarperCollins, uma versão literária de um caso real. “Pão de Açúcar” vive da ficção. Na visão de Maria do Rosário Pedreira, a editora de Afonso Reis Cabral na LeYa Portugal, sabe que é muito difícil falar de uma forma bela ou com uma certa poesia na linguagem de coisas feias, mas esta é uma das características do estilo do escritor de 31 anos.

Em suma, Afonso Reis Cabral, neste seu segundo romance, que coloca a questão do que leva indivíduos jovens para a mitologia do mal, foi capaz de “abordar a violência como se ela fosse necessária para realçar a redenção”, considerou a consagrada autora brasileira Nélida Piñon, também júri do Prémio Literário José Saramago.

O clube que junta leitores de língua portuguesa acontece, uma vez por mês, via Zoom e discute romances, ensaios, memórias e obras de jornalismo literário, na presença de um escritor, editor ou especialista convidado. É moderado pelas jornalistas Isabel Coutinho, responsável pelo site do PÚBLICO dedicado aos livros, o Leituras, e por Úrsula Passos, editora-assistente de Cultura do jornal paulista e coordenadora do Clube de Leitura Folha, que existe desde 2017 e só discute obras de ficção.

Por fim, pelo Encontro de Leituras já passaram o escritor angolano Ondjaki, que discutiu com os leitores o seu romance “Bom Dia Camaradas” (Editorial Caminho); o autor português Valter Hugo Mãe, para falar de “Contra Mim” (Porto Editora); a escritora e professora de literatura brasileira Nádia Battella Gotlib, biógrafa de Clarice Lispector, para conversar sobre “A Paixão Segundo G.H.” (Relógio D’Água), o escritor José Luís Peixoto sobre o seu livro de viagem “O Caminho Imperfeito” (Quetzal Editores); e a poetisa Marília Garcia para falar sobre a coletânea “Câmera Lenta e outros Poemas” (Edições Tinta da China) e o escritor Jeferson Tenório sobre o seu livro de viagem “O avesso da pele” (Companhia das Letras Portugal).

Foto: Afonso Reis Cabral por Filipa Bernardo

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Sobre o autor:
Nasceu em 1990. Aos quinze anos, Afonso Reis Cabral publicou o livro de poesia “Condensação”. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos treze anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo e num alfarrabista. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance “O Meu Irmão”, que se encontra em tradução em Espanha e já foi publicado no Brasil e em Itália. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa, e em 2018 o Prémio Novos na categoria de Literatura. No final de 2018, publicou o seu segundo romance, “Pão de Açúcar”, com forte acolhimento por parte da crítica. Entre Abril e Maio de 2019, percorreu Portugal a pé ao longo dos 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, tendo registado essa viagem no livro “Leva-me Contigo”. Trabalha actualmente como editor freelancer. Nos tempos livres, dedica-se à ornitologia, faz Scuba Diving e pratica boxe.

Sugestão de Leitura:

Leitores residentes em Portugal:
“Pão de Açúcar” – Prémio José Saramago 2019, de Afonso Reis Cabral (Dom Quixote, Wook):
https://www.wook.pt/livro/pao-de-acucar-afonso-reis-cabral/22212454

Leitores residentes no Brasil:
“Pão de Açúcar” – Prémio José Saramago 2019, de Afonso Reis Cabral (Harper Collins Brasil, Livraria da Travessa):
https://www.travessa.com.br/pao-de-acucar-1-ed-2020/artigo/f020b4b7-5d78-4071-a8a6-2a036723bb4c

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Boas leituras!

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Criativo, Criador do Sonhando Entre Linhas, amo ler, e escrever. Gosto de ler quase todos os géneros literários. Amo autores como Valter Hugo Mãe, Fernando Pessoa, José Saramago, João Pinto Coelho, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, entre outros. Desde agosto de 2019, trabalho no Grupo LeYa Portugal.

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