Opiniões

“A Cachorra”, de Pilar Quintana

Com “A Cachorra”, este curto romance de 160 páginas, publicado no Brasil pela Editora Intrínseca e traduzido por Livia Deorsola, repleto de traços que nos demonstram a força e a genialidade da escrita de Pilar Quintana, a autora traz-nos um universo importantísimo que nos mergulha no desejo, na dor e silenciamento femininos. Diria mais, além de todos estes temas, ela consegue mostrar-nos, recorrendo a uma escrita concisa, poderosa e sem rodeios, o quão animais podemos ser enquanto seres humanos.

“O casebre em que moravam era de madeira e estava em mau estado. Quando caía uma tempestade, tremia com trovões e balançava com o vento, a água entrava pelas goteiras do teto e pelas frestas nas tábuas das paredes, tudo ficava frio e úmido.” — Pilar Quintana

Fonte: Editora Intrínseca

Antes de qualquer outra coisa, a forma como a escritora escreveu esta narrativa não é nada usual. E não digo isto por a escrita dela ser difícil, muito pelo contrário, uma vez que cada palavra usada nesta tarefa foi bastante refletiva e cada uma delas tem a sua função, certamente.

O traço que me refiro é o facto de ter ficado abismado como é que ela conseguiu criar tudo isto, usando somente o seu telefone, nos períodos em que amamentava o seu primeiro filho. Por essa razão, ainda lhe dou mais valor, até porque este livro foi finalista do consagrado National Book Award, na categoria de Literatura Traduzida.

Em termos do enredo, “A Cachorra” narra a história de Damares, uma mulher pobre, negra, gorda, que reside à margem de hotéis cinco estrelas na costa do Pacífico colombiano, uma região onde Quintana viveu durante quase uma década.

A protagonista vive uma existência precária e não é capaz de encontrar qualquer hipótese de conforto. A sua mente é constantemente assombrada e, por ter um corpo embrutecido, acaba por se ver à mercê de tempestades, calores intensos e infestações de insetos.

Ainda assim, há uma tragédia, entre as muitas que a assolam, que se sobrepõe a todas as outras, a sua incapacidade de engravidar, um desejo que é bastante forte, desde cedo, que se prolonga durante bastantes anos, sendo que existe uma fase em que a sua relação com o marido, Rogélio, vai ficando desgastada.

“Fazia muito tempo que Damaris e Rogelio dormiam em quartos separados, e nessas noites ela se levantava depressa, antes que ele pudesse dizer ou fazer algo.” — Pilar Quintana

É já por volta dos 40 anos, a idade em que “as mulheres secam”,  após várias tentativas falhadas e com uma atitude de desistência que ela adota uma cachorra e, numa tentativa de estender o seu desejo de maternidade, transferindo-o para o animal que passa a fazer parte da sua vida, ela batiza-a com o nome que daria à tão desejada filha.

No início, a relação entre a cachorra e a dona é harmoniosa e Damaris dá-lhe todo o amor que consegue.

“⁠Tirava a cachorra da caixa e ficava com ela na escuridão, acarinhando-a, morta de susto por causa das explosões dos raios e da fúria do vendaval, sentindo-se diminuta, menor e menos importante no mundo do que um grão de areia do mar, até que a cachorra se aquietava.” — Pilar Quintana

Todavia, à medida que ela cresce, os seus comportamentos mudam e isso faz com que quem cuidava dela e a protegia comece a mostrar um çado mais agessivo e bestial, sobretudo, a partir do momento em que a frequência das fugas do animal começam a aumentar. A partir dessa mudança, o leitor começa a ver, em crescendo, o lado negro e, muitas vezes, oculto da maternidade. Para mim, esse é o ponto central que serve de órbita a toda esta obra.

Não posso deixar de referir que, neste livro, existe um contraste interessante entre Damaris a sua criadora, visto que quem lhe deu vida passou a maior parte da sua existência convicta de que não queria ser mãe, uma ideia que só se alterou aos 40 anos.

Nestas páginas, de forma intensa, Pilar derruba-nos com vários knockouts ao passar por temas de proporções gigantescas: uma infância traumática; a pobreza de afeto que transforma a falta de recursos em algo ainda mais devastador; a solidão materna sentida por todas as mulheres, sem excepção., em qualquer momento da vida.

Por fim, se quisermos analisar uma outra característica que reforça a habilidade magistral da autora é a capacidade que ela tem de, através da metáfora da cachorra, nos mostrar a trajetória de uma mulher que está se está a perder aos poucos na vida, especialmente, aos olhos da sociedade que a coloca num determinado papel de inflexão. Ela, que só deveria ser mãe e esposa, não consegue exercer nenhum dos dois papéis, o que a torna uma verdadeira “fracassada”, socialmente.

Foto: Pilar Quintana/Divulgação

Sobre a autora:
Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea da Colômbia, recentemente, Pilar teve o seu romance “A Cachorra” incluído na lista estendida do prestigioso National Book Award, na categoria de literatura traduzida. O livro ganhou e foi finalista de dois dos maiores prémios literários do seu país em 2018. Pilar também é autora de outros três romances e um livro de contos. Nascida em Cali, a sul de Bogotá, em 1972, no começo da carreira, trabalhou como roteirista e redatora de publicidade, mas antes de completar 30 anos decidiu viver outra vida. Por três anos, viajou pelo mundo até regressar à Colômbia e se fixar em Juanchaco, um vilarejo da costa do Pacífico colombiano, onde construiu a sua casa num local que não tinha eletricidade ou água canalizada. Em 2007, foi eleita uma das 39 vozes de destaque da literatura latino-americana com menos de 39 anos, no Festival Hay de Literatura e Artes, do País de Gales.

Sugestão de Leitura:

Leitores residentes no Brasil:
“A Cachorra”, de Pilar Quintana (Editora Intrínseca, Livraria da Travessa):
https://www.travessa.com.br/a-cachorra-1-ed-2020/artigo/b95b3477-a30a-4bfb-a06b-4e041de3bb52

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Boas leituras!

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Criativo, Criador do Sonhando Entre Linhas, amo ler, e escrever. Gosto de ler quase todos os géneros literários. Amo autores como Valter Hugo Mãe, Fernando Pessoa, José Saramago, João Pinto Coelho, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, entre outros. Desde agosto de 2019, trabalho no Grupo LeYa Portugal.

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