Listas de Leitura

5 obras essenciais para conhecer a escrita e o legado de Agustina Bessa-Luís

Para a literatura portuguesa, 1922 foi um ano marcante, dado que testemunhou o nascimento de 2 autores que ficarão, para sempre, imortalizados na nossa história literária: Agustina Bessa-Luís e José Saramago. Hoje, trago cinco sugestões de leitura da autora que afirmava que “nasceu adulta e morreria criança”, falecida a 3 de Junho, que nos deixou mais de uma centena de livros publicados, o que nos revela, sem qualquer dúvida, que a irreverência pelo qual ficou conhecida foi canalizada para uma produção literária sem precedentes em Portugal. São elas, “A Ronda da Noite”, “A Sibila”, “Fanny Owen”, “As Pessoas Felizes” e “Vale Abraão”.

1. “A Ronda da Noite”
Este foi o derradeiro romance de Agustina Bessa-Luís, tendo sido editado, em 2006. No entanto, a autora recorre a uma ideia que já tinha utilizado, anteriormente, numa outra obra, visto que a narrativa retoma, como ponto de partida, uma escrita baseada em pinturas famosas, tal como “Longos dias têm cem anos”, de 1982, por exemplo, que partia da artista plástica Maria Helena Vieira da Silva. Porém, “A Ronda da Noite” traz-nos “A Companhia do Capitão Banning Cocq”, de Rembrandt, pintado em 1642. Curiosamente, a obra do consagrado pintor ficou conhecida, precisamente, com o título deste romance, tornando-se num dos primeiros da História, com uma cena de grupo em movimento e que, aqui, serve, ora como espelho, ora como metáfora das personagens de uma família burguesa do Norte de Portugal, os Nabasco. Estes possuem “uma cópia nas dimensões naturais” da obra, que vai passando de geração em geração e, também, de casa em casa, com vários membros a acreditar que se trata de um original. Nas primeiras 45 páginas do romance, os leitores acompanham as memórias da família, ficando a conhecer os primórdios da sua história: burgueses de quatro gerações, do Porto, com fortuna alimentada por heranças ou rendimentos acumulados. Na narrativa, Agustina desenvolve Maria Rosa Nabasco como a matriarca da família, com maneiras de coquete fútil, o que, mesmo assim, não invalida o seu lado altamente inteligente e mordaz, de carácter forte, fazendo com que se torne uma perdição para os homens. O seu grande amor é o neto, Martinho, que procura um sentido para a vida no quadro de Rembrandt.

2. “A Sibila”
O seu segundo romance fê-la ascender ao panteão dos grandes da literatura moderna portuguesa, devido ao grande impacto que causou na crítica e, claramente, por ter vencido os conceituados prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz. Publicado em 1954, “A Sibila” combina os tempos passado e presente e descreve a trajetória da família Teixeira e da sua secular casa de Vessada, no Norte de Portugal, começando na decadência e culminando na reaparição triunfal. Além disso, retrata as dúvidas, as angústias e os problemas mais substanciais que determinam a rigidez de personagens que afloram num espaço agrícola tipicamente regional. Com o título a lembrar os leitores das figuras clássicas das sibilas, como a Delfos, é protagonizado por Joaquina Teixeira, conhecida por Quina, acompanhando duas gerações anteriores da sua família e uma posterior, à mistura com amigos próximos, num universo fechado, com um sistema de valores rígido, patriarcal, mas onde são as mulheres a marcar a diferença. É Quina, com a sua força que parece sobrenatural, que no meio de corrupções, conspirações e um incêndio de graves proporções, consegue salvar o património da sua família arruinada.

3. “Fanny Owen”
Baseado em factos reais, “Fanny Owen” é um romance histórico de 1979, que nos entrega um enredo que possui um triângulo amoroso. Com ele, o cineasta Manoel de Oliveira inaugurou uma longa parceria artística portuguesa, tendo dado origem a Franscisca, um filme de 1981, o primeiro com argumento de Agustina Bessa-Luís. No entanto, esta é a história verídica que serve de base ao romance: Na cidade do Porto Porto, no século XIX, dois boémios apaixonam-se pela mesma jovem mulher. Um deles, a pedido dela, rapta-a para com ela se casar por procuração. Porém, a relação não corre bem e, no espaço de um ano, ela morre, desgostosa e doente, uma vez que foi vítima de tuberculose. No mês seguinte, ele acaba por morrer em Lisboa. A jovem mulher era Fanny Owen, filha do coronel Hugh Owen, um combatente britânico na guerra peninsular, que se tinha fixado em Portugal, após casamento com a filha de um abastado comerciante de vinho do Porto, sendo que esta tinha sido educada na corte de Carlota Joaquina. Os dois amigos eram José Augusto de Magalhães – o raptor de Fanny –, morgado e poeta medíocre, e Camilo Castelo Branco, que veio a tornar-se expoente do romantismo literário português.

4. “As Pessoas Felizes”
É um livro essencial por ser a crónica de uma revolução em marcha, sem que os burgueses que gostariam de manter os privilégios de que gozavam nos tempos do Estado Novo reparassem. Publicado em 1975, torna-se um romance premonitório. “As Pessoas Felizes” passa-se no Porto burguês dos últimos tempos do Estado Novo, dominado por uma burguesia tradicionalista, aberta, aparentemente, à modernidade ainda que profundamente marcada pelas regras de um conservadorismo baseado numa mentalidade rural e num formalismo urbano anacrónico. E é, desta forma, que a autora nos insere no plano social deste enredo. Neste pequeno universo deambula a personagem principal, Nel, que não é capaz de se sentir feliz como os que a rodeiam. dado que são frívolos e estão satisfeitos com um mundo de aparências. Devido à sua vida interior rica, capaz de questionar o estado das coisas, Nel é visto como uma ameaça à estabilidade da sua família e acaba por ser afastado, o que metaforicamente representa “o medo do desconhecido” e as profundas alterações sociais que a revolução dos cravos trará ao País.

5. “Vale Abraão”
Escrito em 1991, “Vale Abraão”, é uma releitura do clássico do francês Gustave Flaubert, que inaugurou o tema do adultério visto por um olhar feminino na literatura moderna ocidental, Madame Bovary. O livro que foi encomendado, à autora, por Manoel de Oliveira, traria ao cineasta, doi anos depois, um dos seus maiores sucessos com o filme homónimo – revelando a atriz Leonor Silveira no papel principal. É a história de Ema, dona de uma beleza estonteante, como a Emma de Flaubert, e do seu casamento com Carlos que, no clássico do escritor francês, era Charles. A protagonista, nascida e criada em Romesal, muda-se, através do matrimónio, para o Vale Abraão, na fantástica região do Douro, e mantém-se a mais tradicional das mulheres. Entretanto, um baile, na Casa das Jacas, altera-a profundamente, libertando a insatisfação que sempre sentiu mas que procurava dominar. A crise de identidade, misturada com uma autêntica guerra dos sexos onde os homens tentam justificar o privilégio numa sociedade patriarcal, face ao papel de crescente importância das mulheres na sociedade, vai levá-la a procurar a aventura, num meio rural, marcado pela frivolidade.

Foto: Agustina Bessa-Luís por Rui Ochôa

Caso queira adquirir estes, ou quaisquer outros livros, apoie o Sonhando Entre Linhas, usando o link de afiliado da Wook:
https://www.wook.pt/?a_aid=595f789373c37

Sobre a autora:
Dona de uma escrita irreverente e que não se inseria em nenhuma corrente literária, Agustina Bessa-Luís obteve prestígio, nomeadamente com “A Sibila”. No entanto, a sua carreira foi inaugurada com a novela “Mundo Fechado”, em 1948. Mesmo tendo escrito mais romances, a sua produção intensa e muito acima do que se fez em Portugal, dado que escreveu mais de uma centena de livros, deambulou, também, pelas biografias, contos, crónicas, ensaios, memórias, teatro e literatura infantil. Entre os muitos prémios recebidos, destaco, obviamente, o Prémio Camões, um reconhecimento pelo conjunto da obra que lhe foi atribuído em 2004. Actualmente, toda a sua obra está a ser reeditada, gradualmente, pela Relógio D’Água.

Sugestões de Leitura:

Leitores residentes em Portugal:
“A Ronda da Noite”, de Agustina Bessa-Luís (Relógio D’ÁguaWOOK):
https://www.wook.pt/…/a-ronda-da-noite-agustina-be…/21259494
“A Sibila”, de Agustina Bessa-Luís (Relógio D’Água, Wook):
https://www.wook.pt/l…/a-sibila-agustina-bessa-luis/19700796
“Fanny Owen”, de Agustina Bessa-Luís (Relógio D’Água, Wook):
https://www.wook.pt/…/fanny-owen-agustina-bessa-lu…/20276956
“As Pessoas Felizes”, de Agustina Bessa-Luís (Relógio D’Água, Wook):
https://www.wook.pt/…/as-pessoas-felizes-agustina-…/23009712
“Vale Abraão”, de Agustina Bessa-Luís (Relógio D’Água, Wook):
https://www.wook.pt/…/vale-abraao-agustina-bessa-l…/20276955

Sigam-nos também no Instagram:
https://www.instagram.com/sonhandoentrelinhas/

Boas leituras!

About author

Articles

Criativo, Criador do Sonhando Entre Linhas, amo ler, e escrever. Gosto de ler quase todos os géneros literários. Amo autores como Valter Hugo Mãe, Fernando Pessoa, José Saramago, João Pinto Coelho, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, entre outros. Desde agosto de 2019, trabalho no Grupo LeYa Portugal.

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *