Valter Hugo Mãe inicia o ano com “Deus na escuridão”, o seu novo romance editado pela Porto Editora

O escritor Valter Hugo Mãe afirmou que o seu novo romance, “Deus na Escuridão” analisa “a evidência que apenas o amor das mães pode ser comparado ao de Deus”.

Em declarações à agência Lusa, Valter Hugo Mãe disse: “O que o livro estuda tem que ver com a evidência de que apenas o amor das mães pode ser comparado ao de Deus, isto em termos figurados, estamos a falar de uma hipótese de concebermos absolutos ou demasias.”

“Deus na escuridão”, de Valter Hugo Mãe
(ed. Porto Editora, 272 páginas)

Um dos aspetos em que Valter Hugo Mãe se distingue, para lá do multiforme talento constituindo uma das razões da diferença e do impacto de muitos textos seus, é na capacidade de compreensão da diversidade, mais, de admiração pelos outros e pelo que fazem. E, mais ainda, o seu gosto de amar, proclamar, abertamente, sem submissão a quaisquer cálculos ou conveniências. O que, ao contrário do que muitos poderão pensar, não é tão frequente como isso…
— José Carlos de Vasconcelos, Jornal de Letras

A trama do romance passa-se entre dois irmãos, Pouquinho e Felicíssimo, “mas o que acontece é que o irmão mais velho [Felicíssimo], às necessidades do irmão mais novo [Pouquinho], procura auferir do amor típico das mães, por isso do amor típico de Deus”.

É como se pudéssemos estudar maneiras de aumentar de gostar de alguém e, eventualmente, não há lugar mais alto do que o afeto que as mães têm pelos próprios filhos.”
— Valter Hugo Mãe

Se uma passagem do livro pudesse condensar o romance, seria esta:

Amamos mais o que vemos em perigo. Somos feitos para aumentar de coração perante a família que sofre. Por vezes, nem tripas levamos dentro, nem estômago ou rins. Somos tão ocupados por amar alguém que nenhuma função desempenhamos senão a de amar, e todo o nosso interior é o coração dilatado, esforçado como um touro jovem que se disfarça em nosso aspeto mais frágil.
— Valter Hugo Mãe

O primeiro passo para este livro foi uma pessoa amiga do autor, “a senhora Luísa Reis de Abreu, que vive de facto na Madeira [cenário da narrativa], precisamente no Campanário”.

Quando a conheci fui reparando os trejeitos de linguagem, que se tornam atraentes para quem escreve, é sempre um motivo de curiosidade os linguajares locais, mas depois fiquei com a ideia. […] Tornou-se uma senhora muito amiga, e que me impressionou, particularmente, pelo exercício da fé. Eu diria que não tenho conhecido ninguém, que tenha uma fé mais escorreita, mais límpida que a senhora Luísa Reis de Abreu”, afirmou Valter Hugo Mãe à Lusa.

“O livro começa com uma necessidade de captar, de representar
uma fé tão inequívoca e tão apaziguada.”
— Valter Hugo Mãe

Luísa Reis de Abreu é a personagem Luisinha do Guerra do romance que, segundo rescreve o romancista, “era escutada com devoção, porque os santos aprendiam por ela a santidade”.

A ilha da Madeira é apresentada pelo autor como um ambiente exótico: “Eu queria muito traduzir a impressão que a ilha me causa, e de facto, nós temos hoje uma imagem da ilha da Madeira como um espaço ‘domesticado’, mas é uma visão muito rápida, turística, que não corresponde de todo ao que realmente acontece, a ilha ainda tem muito de selvagem, até, mas sobretudo de indomável”. 

O livro passa-se efetivamente num lugar que existe, o Buraco da Caldeira, e é exatamente assim, algumas casas estão ao dependuro da encosta, são uns lugares que parecem habitáculos para pássaros. Não parece possível que as pessoas subam aquelas ribanceiras, e muitas vezes sem acesso automóvel.”
— Valter Hugo Mãe

Adicionalmente, Valter Hugo Mãe afirmou que este será o seu “texto mais espiritual”.

“É uma tentativa de fazer as pazes com uma pulsão natural para desobedecer à racionalidade e conceber que existe algo mais para além da dimensão física, da dimensão animal.”
— Valter Hugo Mãe

Em jeito de conclusão, “Deus na Escuridão” fecha a tetralogia do escritor, iniciada em 2013, que apresenta territórios insulares como cenários narrativos: “A Desumanização” foi o primeiro, passando-se na Islândia, seguiu-se “Homens Imprudentemente Poéticos” (2015), cuja ação decorre no Japão, e “As doenças do Brasil” (2021) passa-se nas ilhas da Amazónia.

Foto: Valter Hugo Mãe por Lucília Monteiro

Sobre o autor:
Nascido em 1971, Valter Hugo Mãe é um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em países como o Brasil, a Alemanha, a Espanha, a França ou a Croácia. Publicou sete romances: “Homens Imprudentemente Poéticos”; “A Desumanização”; “O Filho de Mil Homens”; “A Máquina de Fazer Espanhóis” (Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano e Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano); “O Apocalipse dos Trabalhadores”; “O Remorso de Baltazar Serapião” (Prémio Literário José Saramago) e, ainda, “O Nosso Reino”. Adicionalmente, escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: “Contos de Cães e Maus Lobos”, “O Paraíso são os Outros” e “As Mais Belas Coisas do Mundo”. Já no ano de 2020, publicou “Sempre Serei o teu Abrigo”, “Contra Mim”. Depois, surgiu “As doenças do Brasil”, em 2021, “A minha mãe é a minha filha” em 2022 e “Deus na escuridão” em 2024. Numa carreira que já tem mais de duas décadas, a poesia, o género pelo qual começou, encontra-se reunida no volume “Publicação da Mortalidade”. Actualmente, escreve a crónica “Autobiografia Imaginária” no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias.

Sugestão de Leitura:

Leitores residentes em Portugal:
“Deus na escuridão”, de Valter Hugo Mãe (Porto Editora, Wook):
https://www.wook.pt/livro/deus-na-escuridao-valter-hugo-mae/21841834

Boas leituras!

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